Ondaparque tem projeto para voltar 23 anos depois — e nasceu do sonho de quem lá ia

NT 15/05/2019
Espaço de Almada esteve abandonado durante décadas. Nos anos 90 tinha cinco mil visitas por dia — Helder e Bruno eram duas delas.

Há 23 anos, Helder e Bruno eram dois miúdos. Moravam respetivamente em Lisboa e em Cascais, mas todos os verões era certo: rumavam a Almada para passar dias inteiros no Ondaparque. Eram apenas duas das mais de cinco mil pessoas que frequentavam diariamente o gigante parque aquático, nos escassos anos em que esteve aberto. Foi menos de uma década a funcionar, mas que chegou para marcar memórias de várias gerações.

Há quem se lembre da sua infância com uma nostalgia desmesurada pela Feira Popular. Pelas piscinas do Campo Grande, ou pelos barquinhos que ainda lá existem. Por ver o “Verão Azul” na televisão, por idas a Tróia nos ferries. Para Helder Nogueira e Bruno Carvalho, as duas pessoas que estão a tentar há nove anos reabrir a estrutura da Caparica, essas memórias mais marcantes têm um nome: Ondaparque.

O parque junto ao IC20, perto das praias da Costa, esteve a funcionar apenas durante oito anos, de 1988 a 1996. Apesar da dimensão do projeto e do seu sucesso, com casa sempre cheia, fechou em meados dos anos 90 por problemas relacionados com a necessidade de obras e alegada má gestão. Não haveria reinvestimento e o parque deixou de se sustentar quando o custo de operacionalidade superou o retorno.

Quando encerrou, vivia-se também uma época menos feliz para os parques aquáticos: tinham acontecido dois acidentes trágicos e fatais no Aquaparque do Restelo em 1993 e, embora não houvesse qualquer semelhança ou relação entre os dois espaços — a não ser o facto de serem parques aquáticos, como centenas de outros —, na mente das pessoas pode ter havido uma certa confusão. Ou pelo menos ficou a desconfiança, o medo.

Além disso, relatava o “DN” em 2007, depois desse acidente, a fiscalização aos parques aquáticos aumentou e seriam precisas algumas mudanças no Ondaparque. Mas o proprietário de então, o barão Sloet tot Everlo, não teve meios ou interesse em fazê-lo — e foi o princípio do fim.

De quem lá passou, nos seus oito anos de vida, as memórias são unanimemente boas. Desenhado em 1985 com planeamento adaptativo ao longo de 1986, o Ondaparque foi inaugurado a 1 de maio de 1988, o único do seu género no País com um avançado sistema de renovação de águas, vastas áreas de lazer e atracões apenas conhecidas nos parques aquáticos internacionais.

A sua abertura tornou-se lendária pela dimensão: 14 hectares de área útil, o maior parque aquático em território nacional e a afluência de utilizadores valeram-lhe o título de ícone das férias de verão, depois divulgado através de diversos anúncios e de um mítico vídeo narrado por Carlos Duarte com as ex-modelos Ana Borges e Nucha. Alvo de constantes eventos diurnos e noturnos, foi palco do “Big Show SIC”, era conhecido por ter música a toda a hora, concursos constantes em cada uma das onduladas piscinas, desfiles, a definição de diversão de férias e de sol familiar.

Ao longo dos anos, foram sendo construídas novas infraestruturas de apoio e adaptadas várias infraestruturas técnicas. A configuração original do parque foi tão bem conseguida que, 31 anos após a sua construção, é ainda hoje funcional; e, apesar da ausência de valor arquitetónico, as suas características ainda fazem sentido visual, explica à NiT Helder Nogueira.

Os dois responsáveis pelo grupo que quer salvar o espaço, a Equipa Ondaparque, têm agora 33 (Helder) e 35 anos (Bruno). Helder é analista de sistemas, com especialização em desenvolvimento 3D e Bruno Carvalho militar da Marinha Portuguesa, com especialização em lei regulamentar balnear.

Quando eram miúdos, ambos frequentavam o parque aquático de Almada, mas não se conheciam. Nem se conheceram na maioria da sua vida adulta. Até 2010. “A Equipa Ondaparque não foi planeada, uma vez que as pessoas que a compõem não tinham qualquer relação ou contacto entre si. O grupo formou-se ao longo dos esforços empenhados ainda numa fase muito inicial de levantamento técnico e legal da antiga infraestrutura, em 2010”, explica Helder à NiT.

Um ano antes, em 2009, surgira nas notícias a possibilidade de acontecer um mega festival de música nas instalações, um evento que traria uma grande visibilidade ao potencial de todo o complexo, entretanto já abandonado e vandalizado. O festival acabou por não avançar; e assim não ficaram claras as enormes possibilidades que o recinto, com características únicas, ainda tinha.

A mensagem não passou à maioria da população: mas chegou a eles. Helder Nogueira e Bruno Carvalho conheceram-se precisamente quando, motivados pelo festival que não chegou a acontecer e pelas suas memórias de infância, ambos iniciavam esforços individuais de pesquisa para tentar perceber o que poderia ser feito no seu espaço de eleição. Encontraram-se algures no mundo cibernético, unidos pelas memórias e pelas mesmas dúvidas, e decidiram unir também esforços. Estão agora há nove anos nesta luta.

Primeiro, foi preciso compreender a viabilidade de requalificação da estrutura. Já se sabia que o Plano Diretor Municipal de Almada para aquela zona previa equipamentos e não habitação, um bom princípio. Restava saber se a configuração original do parque face às atuais diretivas e decretos podia ser compatível com a sua função de complexo de diversões aquáticas. “Só então poderíamos, enquanto Equipa Ondaparque, trabalhar num projecto de requalificação”, explica Helder.

No final de 2012, após dois anos de levantamentos e análises estruturais, concluiu-se: “O Ondaparque cumpre 83 por cento das diretivas técnicas, que aliadas à viabilidade estrutural, determinam elevada possibilidade de requalificação.”

Ou seja, a estrutura original tem um elevado índice de aproveitamento possível. O parque poderá efetivamente reabrir, mantendo grande parte da sua configuração original, sendo este um fator a considerar ao nível de investimento inicial. É apenas na classe de investimento que variam os objetivos do Ondaparque, podendo representar alterações necessárias, explica a equipa. Trocado por miúdos, seria relativamente simples reabrir o parque, em moldes semelhantes aos dos anos 90 — ou noutros, consoante as preferências de quem pegar e investir no projeto.

A equipa tem a sua própria visão: “Face a todas as análises compiladas nos diversos parques de diversões visitados, estudos previsionais e leitura na recetividade referente a equipamentos de diversão aquática, prevemos um Ondaparque diferente no sentido lúdico.”

Das diversões originais — as míticas Piscina dos Cogumelos, do Caramelo, a Slide Wall e as Pistas Fofas, a equipa defende que faz sentido manter apenas este último: “Não só pelo seu excelente estado de preservação, mas também pela elevada adesão que marca este equipamento como um dos favoritos nas diversas faixas etárias.”

De resto, para o futuro no seu projeto, idealizam um parque de diversões aquáticas temático, beneficiando da identidade do seu desenho original mas equipado com as mais recentes novidades. E ainda com amplas infra-estruturas de apoio com altos padrões de acessibilidade e segurança, temas convidativos e constantes. Tudo isto num complexo “equipado com grande variedade de jogos de água”. O novo conceito prevê ainda uma central de segurança operacional, recorrendo às tecnologias de informação mais recentes.

Do sonho ao projeto
Se o Ondaparque ainda não avançou ou reabriu, não foi assim por falta de vontade, de estudos ou de projeto. A equipa já fez isso tudo nos últimos nove anos — e até o ajudaram a secar, com as suas próprias mãos.

A drenagem das águas dos tanques, reservatórios, centrais de bombagem e piscinas foi toda feita pelos dois membros do grupo, investindo em bombas submersíveis, extensores de energia e tubagem móvel. Após a drenagem, removeram toda a matéria depositada nas piscinas ao longo dos anos, mais uma vez pelos seus próprios meios.

Limparam e criaram as condições necessárias para os testes técnicos e análises efetuadas pelas empresas convidadas, num árduo trabalho que levou a preparar o parque para orçamento. Antes de haver uma Equipa Ondaparque, houve anos de abandono, pilhagens e vandalismos. Agora há um espaço pronto para obras e à espera. À espera de um investidor que agarre nisto tudo.

Em todo este processo houve, reiteram, o apoio de uma pessoa crucial na história: o atual proprietário do terreno de mais de 14 mil metros quadrados, o engenheiro Libório Temporão. O dono do espaço não tem interesse em reabilitar o parque aquático por si, quer apenas vender a quem o fizer. Mas ajudou a equipa a levantar o seu sonho.

“Foi crucial o seu apoio num trabalho conjunto, assegurando o acesso das equipas às instalações do antigo parque”, explica Helder.

Com acesso ao espaço e os estudos preliminares feitos, foram contactadas as principais empresas nacionais e internacionais de construção de complexos de diversão aquática de grande dimensão. Foram criados planeamentos técnicos a aplicar no Ondaparque pelos mais conceituados núcleos de engenharia aquática. O projeto conta ainda com toda a digitalização à escala real em base CAD. “O resultado de todas as alterações, adaptações, implementações, pode ser enquadrado em tempo real e em tecnologia 3D”, adiantam.

A última versão do projeto do Ondaparque foi apresentada em abril deste ano: tem uma galeria própria no Facebook do grupo, que pode consultar. Por falar em Facebook, são já mais de 33 mil seguidores desta página, criada pela equipa. Encontra atualizações constantes, partilha de memórias, verbais e fotográficas, conjugações de esforços, um mundo. Toda uma nostalgia real, palpável e de relevância numérica, que comprova o interesse do público no parque.

O trabalho executado, em todas as áreas técnicas e operacionais, bem como toda a gestão atual representativa do Ondaparque, foi financiada pelos próprios meios e recursos da equipa. A divulgação nas páginas das redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin, YouTube) imagem, comunicação, 3D, apresentações, reuniões e levantamentos, também. Mas a ajuda chegou de muitos lados: “Todas as pessoas que direcionam o seu interesse para o Ondaparque ajudam. A partilha de uma opinião ou partilha de uma fotografia, constitui para nós uma forma de ajudar e apoiar”, garante Helder.

À parte da ligação afetiva dos dois, também há obviamente objetivos reais. Depois de todo o empenho investido, o sonho continua a ser o mesmo daquele idealizado em 2010: a dinamização “face ao potencial que o recinto com características únicas tem”. Ou seja, Bruno e Helder pretendem a reabertura do Ondaparque, mantendo a sua função original, de parque de diversões aquáticas, que poderá naturalmente ser conjugado com diversas atividades transversais. E pretendem garantir o seu sucesso contínuo e financeiro.

Apesar de ser um projeto único e de já ter tido muito interesse, só não há ainda um “investidor dedicado”. Não está por isso em curso qualquer aplicação deste projeto, havendo até disponibilidade para ser redefinido, consoante o investidor.

Helder e Bruno acreditam que o dia da reabertura do parque chegará, que o espaço semi-abandonado não faz sentido em plena Almada turística e que há mercado. “Dos 18 recintos de diversão lúdica aquática, na categoria de Parque Aquático do País, apenas dois parques de grande dimensão se definem na mesma categoria equiparável à do Ondaparque. E ficam ambos no sul, a mais de 265 quilómetros de distância de Lisboa.”
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A área da capital precisa, “sem dúvida, de um parque aquático de grande dimensão, ajustado à grande procura que se evidencia”, dizem. “O Ondaparque, com acessos fáceis como a via rápida da Costa da Caparica, teria um mercado potencial de centenas de milhares de pessoas.”

E depois há a nostalgia. A Equipa Ondaparque diz ainda se lembrar dos sons, da sua vida, do ambiente festivo, dos míticos desfiles, das corridas em escorrega, da dança coreografada em piscina. “Lembramo-nos de todos os detalhes, desde o simples som dos apitos até às notícias que a rádio do parque passava entre músicas. As horas de diversão, os concursos, as pessoas, os gritos de felicidade mas, mais marcante, a ansiedade e a emoção sentida ao entrar ali”, diz Helder. “Faz falta e a pertinência é cada vez maior. São precisos espaços que estimulem a relação entre pessoas, momentos de diversão, com as tecnologias em segundo plano.”

E não é o mesmo ir para sul ou para Espanha, acredita. “As crianças da área metropolitana de Lisboa estão um pouco desprovidas de constituir as mesmas memórias que a geração de 90 tão nostalgicamente recorda.”

Veja mais em ::::> New in Town

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